Ukemis

Quando entra um novo aluno no dojo, é comum que ele queira começar fazer grandes técnicas. De preferência aquelas “mágicas”. Mas muitos ficam decepcionados, quando a primeira coisa que fazem é aprender a cair. Como assim aprender a cair? viemos aqui para aprender nos defender, e não para sermos derrotados! Alguns nem voltam para a segunda aula. Confesso que fico satisfeito quando esses alunos não voltam, pois entendo que não vieram aprender com o coração puro, mas já antevendo o que poderiam fazer de mal para outras pessoas, e por isso não aceitam ter que aprender a simplesmente cair. Claro que muitos procuram uma arte marcial com o objetivo de aprender uma defesa pessoal, mas quando vejo que um aluno sequer quer aprender a cair, vejo que ele não quer compartilhar com o dojo as suas experiências, quer apenas absorver conhecimento sem dar nada em troca.

Uma coisa que precisamos entender, é que cair não é um sinal de derrota, mas de renovação. Caímos para nos levantar novamente, e a cada vez que nos levantamos buscamos aprender cada vez mais. Quando aprendemos a cair, percebemos que a queda não vai nos causar grandes danos. Mas quando temos a arrogância de nos acharmos invencíveis, a queda será amarga, dolorosa e de grande impacto. Entendam estas palavras não apenas no sentido de se fazer uma simples queda no tatame, mas tente levar esta idéia para as quedas que a vida nos reserva. Aquele momento ruim que vivemos, aquele ato que falhamos, enfim tente observar todos os momentos ruins que já passou e que de algum modo significou uma queda na sua vida. Vamos ver que o problema maior não foi a queda, mas a forma que nos levantamos. Nos levantar com dignidade é uma das tarefas mais árduas quando se tem um orgulho muito elevado. Portanto treinar uma queda é o menor dos nossos problemas.

Como descrevi acima, aprender a cair é a primeira coisa que ensinamos para os novos alunos. Começamos a ensinar como cair para trás e depois como cair para frente. Claro que ensinamos as quedas mais simples, nada muito sofisticado, sem grandes saltos. Isso o aluno vai aprendendo na medida que for treinando. É fundamental que inicialmente ele aprenda a não se machucar quando cair. Nos meus treinos, eu tomo a liberdade de iniciar o treino para trás da maneira mais fácil possível, deixando o aluno sentado no tatame, mostro que para cair para trás é necessário colocar o queixo próximo do peito, e digo que é necessário bater as palmas da mão antes do tronco encostar no tatame, para que assim o impacto seja amenizado. E assim o aluno começa a se jogar para trás (com o quadril sentado no tatame). Desda forma vamos dando uma inteligência corporal para o aluno. Quando digo inteligência corporal, é para que o corpo do aluno, se acostume em fazer este movimento. Ele precisa fazer este movimento sem pensar na mecânica do movimento, pois em uma queda real, ele não poderá ficar pensando nas posições de queixo, mãos, pernas e etc. O corpo tem que se posicionar de maneira automática para a queda. Quando percebo que o aluno já está caindo sem medo para trás (isso demora em geral 2 aulas), mostro que ele deverá então ficar agachado sentado em um dos calcanhares. Aumento a altura que ele vai começar a cair. Antes ele estava com o quadril no tatame, agora ele estará agachado, sentado em um dos calcanhares e então irá cair para trás. Desta forma vou aumentando a confiança do aluno na queda. Ele passa a acreditar que com aquela queda ele vai evitar se machucar. Quando percebo que o aluno já está confiante (em geral depois de 2 aulas), ai vamos para as quedas partindo da posição de pé. Inicialmente fazemos as quedas sem rolamento, apenas para o aluno aprender a cair partindo de uma posição em pé. É o famoso Ushiro Ukemi.

No Ushiro Ukemi o aluno começa da posição em pé e vai caindo para trás. Para isso ele recua uma das pernas e faz o movimento como se fosse sentar no calcanhar da perna que foi recuada, porém antes de sentar nesse calcanhar, ele projeta seu corpo para trás. Ao chegar no chão ele aproveita a energia que usou para cair, faz um pêndulo e levanta o corpo novamente. Quando o aluno começa a ganhar mais confiança, mostramos uma pequena variação desta queda, mas que particularmente aprecio muito, o Ushiro Kaiten Ukemi.

A diferença básica é que no Ushiro Kaiten Ukemi o aluno deverá aproveitar toda energia durante a queda para fazer um rolamento para trás e terminando em pé. Claro que para esta queda é necessário ter um espaço maior para se deslocar, mas mostra toda a essência daquilo que descrevi acima. Usar a energia da queda para se levantar novamente. Paralelamente ao ensino da queda para trás, também iniciamos o treino para queda para frente. Esta queda é a mais trabalhosa para se aprender. O motivo é interessante. Para trás o aluno não vê o tatame no momento da queda, mas para frente ele o vê. É incrível como esta visão bloqueia o corpo. Instintivamente o cérebro manda algum tipo de mensagem para o corpo travar e evitar a queda a qualquer custo. Por isso treinamos, para que o cérebro aprenda que não é preciso travar o corpo para evitar a queda, mas aprender a cair sem se machucar. Assim como na queda para trás, inicio o treino de queda para frente, colocando o aluno sentado no tatame. Peço que ele estique um braço e incline a cabeça para o lado oposto do braço esticado. Depois ele apoia o ombro do braço esticado no tatame e projeta o corpo para frente com a ajuda das pernas. Com isso, ele começa a “rolar” para frente, sem o risco de bater o ombro no tatame. Considero o risco de bater o ombro o mais crítico, pois por ser muito dolorida a recuperação pode aumentar o medo para esta queda. Depois que percebo que o aluno começou a rolar para frente sem receios (em geral 5 aulas), peço que ele comece a rolar mas agachado. O braço que antes estava esticado deverá passar por debaixo do seu corpo formando um arco, para que desta forma o rolamento se inicie pelo braço passando pelo ombro e chegando até as costas e assim completando o movimento. Quando percebo que o aluno consegue fazer este movimento com confiança e sem risco, ai passamos para a queda propriamente dita, o Mae Ukemi.

No desenho acima, o movimento ocorre da direita para a esquerda. Observamos que assim como o Ushiro Kaiten Ukemi, vamos aproveitar a energia da queda para nos levantarmos depois do rolamento. Claro que com o tempo de treinamento vamos aprender variações de quedas, que serão usadas em algumas técnicas aplicadas com maior eficiência, mas isso vai ocorrer com o tempo. É o tempo que nos ajuda a entender o que erramos na vida, nada mais justo deixar que o tempo nos ensine a melhor forma de cairmos e nos levantarmos no tatame e consequentemente na vida.

(@Varela_San)

ilustrações retiradas do livro Aikido – O Caminho da Sabedoria – A Técnica do Shihan Wagner Bull