Iwana, o lugar aonde nasceu o AIKIDO

Pergunte até para um aikidoka principiante quem foi o fundador do aikido e a maioria deles será capaz de identificar Morihei Ueshiba como o criador da arte. Provavelmente isso se deve ao fato de que a foto de Ueshiba está pendurada no shomen da maioria dos dojos de aikido por todo o mundo, e mais cedo ou mais tarde, todo aikidoka ouve o nome do fundador ser mencionado. Mas se esta linha de questionamento for ampliada, incluindo praticantes de nível intermediário e avançado, perguntando a eles quando e aonde Ueshiba desenvolveu seu aikido, poucos seriam capazes de dar uma resposta correta.
Realmente, a verdade é que as linhas de aikido que tem maior popularidade atualmente devem muito mais aos alunos diretos de Ueshiba, como Koichi Tohei, Kisshomaru Ueshiba, Gozo Shioda, Kenji Tomiki, e Minoru Mochizuki que ao fundador. As razões para isso se relacionam principalmente com os eventos da Segunda Guerra Mundial e suas conseqüências. Quando o aikido começou a dar seus primeiros passos como um moderno budo, no início da década de 1950, Ueshiba já tinha cerca de 70 anos e muitos pensavam que ele estava aposentado na área rural da prefeitura de Ibaragi. Assim, as tarefas de estabelecer dojos, criar organizações, formalizar o currículo e dar graduações, e enviar professores por todo o Japão e para o exterior foram deixadas principalmente aos cuidados das pessoas enumeradas acima.

As origens de Ueshiba

Ante de descrevermos as circunstâncias do nascimento do aikido em Iwama, vamos olhar rapidamente para as origens de Ueshiba até o ponto em que suas conexões com a comunidade de agricultores de Ibaragi começaram. Morihei Ueshiba nasceu na cidade costeira de Tanabe na prefeitura de Wakayama em 14 de Dezembro de 1883. Ele pertencia a uma família de classe média – alta e seu pai trabalhou no conselho da cidade de Tanabe por muitos anos. Morihei recebeu uma educação formal até a escola secundária. Com 19 anos, ele se mudou para Tókio buscando uma carreira como comerciante, mas voltou para Tanabe após menos de um ano, e logo ele abandonou a idéia de entrar para o mundo dos negócios.
Morihei finalmente encontrou sua vocação quando liderou a ida de um grupo de colonos de sua cidade natal para a área selvagem do nordeste de Hokkaido em 1912. Lá, o grupo de Tanabe estabeleceu uma pequena vila chamada Shirataki. Em 1915, Ueshiba conheceu o famoso mestre de jujutsu Takeda Sokaku em uma cidade próxima. Fascinado com as habilidades e a maestria de Sokaku em artes marciais, muito superiores às suas, Morihei se devotou ao treinamento do Daito-ryu aikijujutsu pelos cinco anos seguintes, se tornando um dos principais alunos de Takeda.
Após passar sete anos em Hokkaido, Ueshiba saiu de Hokkaido ao receber a notícia de que seu pai estava muito doente em Tanabe. Ao retornar para Wakayama, Morihei passou pela cidade de Ayabe, perto de Kyoto, aonde encontrou com o Reverendo Onisaburo Deguchi, o co-fundador da religião Omoto, para orar pela melhora de seu pai. Logo depois, em 1920, Morihei se juntou à comunidade Omoto com sua família e se tornou um grande apoio para Onisaburo e sua seita religiosa. Por sua vez, Deguchi encorajou Morihei a cultivar suas habilidades marciais dando aulas aos membros da seita religiosa.
Com as bênçãos de Onisaburo, Morihei retornou de Ayabe para Tókio em 1927 para começar a disseminar seu aikijujutsu em tempo integral. Após passar vários anos ensinando à elite da sociedade Japonesa em diversos lugares temporários, Morihei finalmente abriu seu próprio dojo em Shinjuku, em Tókio, em 1931. O Kobukan Dojo funcionou como base de operações de Ueshiba, e seus alunos eram principalmente pessoas importantes dos círculos militar, político, do comércio, e pessoas ligadas à religião Omoto. Ele também deu aulas de autodefesa em diversas instituições militares na grande Tókio, inclusive na escola militar de Toyama. Nesta época o foco das aulas de Morihei era principalmente a área de Tókio, aonde ele criou uma forte rede de conexões com pessoas de altas patentes que lhe abriram muitas oportunidades para expandir suas atividades.

Iwama e o Budo Senyokai

A discreta vila de Iwama, situada na área rural da Prefeitura de Ibaragi parece ser um lugar improvável para ser o local de nascimento do aikido. Mas, atualmente, o website da Cidade de Iwama orgulhosamente proclama ser o aikido uma das principais atrações da comunidade e indica que estrangeiros que vêm à cidade para aprender a arte podem ser frequentemente vistos nas ruas da cidade. Iwama está localizada entre Tsuchiura e Mito na linha Joban — a estrada de ferro que conecta Ueno a Sendai— e tem atualmente uma população de apenas 16,750 pessoas. Há 70 anos, quando os eventos iniciais que ligaram o aikido a Iwama ocorreram, era apenas uma vila de agricultores com poucas centenas de pessoas.
Talvez não seja surpreendente que o envolvimento de Morihei Ueshiba com a religião Omoto gerou o nexo para esta ida para Iwama. Em 1932, uma associação para a promoção das artes marciais chamada Budo Senyokai foi estabelecida com o apoio da Religião Omoto. Esta organização foi criada pela iniciativa de Onisaburo Deguchi, que criou diversos outros “grupos auxiliares”, que atrairiam diferentes segmentos da sociedade Japonesa. Esta idéia funcionou bem, e no início da década de 1930, a Seita Omoto tinha mais que um milhão de adeptos, de diversos níveis econômicos e sociais.
Morihei tinha pertencido ao círculo mais interno da Seita Omoto desde o início da década de 1920. Ele era um tipo de “garoto propaganda” para a Omoto, pois Onisaburo gostava de receber pessoas talentosas de todos os tipos em sua religião, já pensando em seu potencial para propósitos de promoção. Ueshiba era visto como um artista marcial completo —e serviu até como guarda-costas de Onisaburo—
e como uma pessoa importante na Seita Omoto, que freqüentemente atraia o desagrado das autoridades do governo.
O Budo Senyokai criou uma rede de grupos de estudo de artes marciais que tinham suas aulas em conjunto com os grupos da Omoto que operavam por todo o pais. Apesar de, teoricamente, várias artes marciais serem incluídos no currículo, o foco principal era o aikijujutsu de Morihei, como fica evidente pelo fato de que o primeiro conselheiro da associação e a maioria dos treinamentos eram ligados ao aikijujutsu de Ueshiba. A criação do Budo Senyokai deu a Morihei uma rede já pronta que envolvia todo o Japão, com grupos afiliados, o que permitia que ele criasse uma base de alunos de forma muito mais rápida que antes.
O grupo Omoto em Iwama estava entre os que começaram as sessões de treinamento em aikijujutsu. A pessoa encarregada do treinamento lá era um homem chamado Yoshikatsu Fujisawa. Fujisawa tinha passado por um rápido treinamento na cidade de Takeda, na Prefeitura de Hyogo, aonde o Budo Senyokai tinha seminários intensivos de prática. O treinamento em Iwama era feito na casa do carteiro da cidade, Mitsunosuke Akazawa, pai de Zenzaburo, o último dos uchideshi do pré-guerra de Ueshiba.
Uma das pessoas que participou do treinamento do Budo Senyokai em Iwama era um jovem chamado Shigemi Yonekawa, que era um parente da família Akazawa. Yonekawa logo se tornou um pupilo entusiástico de aikijujutsu, e entrou para o Dojo Kobukan de Ueshiba como uchideshi em 1932. Em uma entrevista de 1979, Yonekawa descreve sua apresentação ao aikijujutsu:
“… me perguntaram se eu não estaria interessado em participar de um seminário de artes marciais [em Iwama], e eu decidi comparecer. Antes de ir a esse seminário, eu tive experiência em fazer quedas de judo. Então fui ao seminário com a impressão equivocada de que seria muito divertido. Eu pratiquei por quatro ou cinco dias, mas estava totalmente fora do meu elemento. O professor lidava comigo com grande facilidade, e estava tão impressionado pela sutil profundidade desta arte, e sabia que queria aprendê-la.
Quando conversei com o Sr. Fujisawa ele me chamou para ir com ele e me tornar seu assistente. Viajamos pela Prefeitura de Ibaragi, e quando chegamos a Tókio, ele me apresentou a Ueshiba Sensei. Me disseram que o caminho mais rápido para aprender a arte seria me tornar um uchideshi. Então pedi a ajuda do Sr. Akazawa, e ele pediu a Ueshiba Sensei por mim. Foi assim que passei a ser uchideshi.”

Yonekawa foi em frente e se tornou um dos principais assistentes de Morihei, ganhando um lugar permanente na história do aikido, servindo como uke de Ueshiba, na famosa serie de fotos técnicas tiradas em 1935 no dojo particular do famoso fundador da Kodansha, Seiji Noma.

A casa de Akazawa, aonde o treinamento ocorria, ainda está de pé em Iwama e é usada para as reuniões da Omoto na cidade. Estão em exposição as fotos da fundadora, Nao Deguchi, Onisaburo e sua esposa Sumiko, e seu interior parece igual a como era há 70 anos atrás, quando era usada como dojo para as sessões de treinamento da Budo Sen’yokai.
O treinamento de Aikijujutsu em Iwama parou de forma abrupta em Dezembro de 1935, quando o governo Japonês brutalmente suprimiu a Religião Omoto no famoso Segundo Incidente Omoto. A maioria dos principais líderes da Omoto, incluindo Onisaburo e sua esposa foram aprisionados e alguns, como Hidemaro Deguchi, foram torturados.  Morihei escapou da prisão apenas devido a ajuda de um de seus alunos que era chefe da policia da prefeitura de Osaka. Até Mitsunosuke, pai de Zenzaburo, foi detido por várias semanas.

Preparando um retiro em Iwama

Apesar das sessões de prática da Budo Senyokai terem sido suspensas, a ligação de Ueshiba com Iwama tinha sido firmemente estabelecida. No fim da década de 1930, Morihei começou a discutir a idéia de construir um dojo ao ar livre longe de Tókio, para servir como lugar de treinamento. Ele estava dando aulas na escola Militar de Toyama para oficiais do exército, e para diversas outras instituições militares há vários anos. Mas Ueshiba estava restrito ao tipo de treinamento que ele podia dirigir. Ele queria criar um dojo em um lugar longe da agitação de Tókio, aonde podia fazer uma prática mais realística. Mitsunosuke Akazawa, já mencionado—cujo filho Zenzaburo era um dos uchideshi de Ueshiba—ajudou Morihei na compra de uns 4 ou 5 hectares de terra em Iwama, e foram feitos planos pra a construção de uma área de treinamento ao ar livre. Ueshiba começou a visitar Iwama quando o dojo a céu aberto estava sendo construído, o que começou em 1939.
Ao mesmo tempo, a guerra do Pacifico levou à rápida falta dos membros do Kobukan Dojo de Ueshiba, pois seus alunos mais jovens foram convocados, um a um, para o serviço militar. Por volta de 1942 havia apenas um punhado de alunos praticando no Kobukan Dojo.
Apesar de haver poucos alunos em seu dojo, 1942 foi um ano atribulado para Morihei, pois ele dava aulas em diversas instituições militares simultaneamente. Anos antes, Ueshiba tinha a ajuda de seus principais uchideshi, que o ajudavam a dar aulas por turnos nas diversas academias militares. Agora ele tinha poucos restantes para ajudá-lo. A guerra do Pacifico estava no auge e começaram os primeiros bombardeios em Tókio.  Apesar de ter sido originariamente concebido como um retiro para o treinamento intensivo de budo, as terras de Morihei em Iwama passaram a oferecer um refúgio para ele e sua esposa escaparem dos perigos de Tókio.
Morihei iniciou seu plano de se mudar para Iwama em etapas. Ele construiu um dojo de 36 tatamis como área particular de treinamento e também um pequeno santuário apelidado de “Shinden”, ambos completados em 1942. Este santuário foi dedicado a uma deidade do budo e foram feitas cerimônias presididas por sacerdotes Omoto, o que foi mais uma evidência de que a fé de Morihei na Religião Omoto não tinha diminuído, apesar do segundo Incidente Omoto. Como outro passo importante no seu retiro para Iwama, Morihei indicou seu filho, Kisshomaru—que era um aluno de 21 anos da Universidade de Waseda —como Dojo-cho do Kobukan Dojo, afastando-se também da maioria das responsabilidades administrativas. Kisshomaru foi ajudado na operação do dojo por Minoru Hirai, que depois criou o Korinkai Aikido.

“Retiro” em Iwama

O fundador ficou bastante doente no fim de 1942 com uma intoxicação intestinal e isso deve ter afetado o momento de seu afastamento para Iwama. O contraste entre a agitada vida de Tókio era dramático, pois a cidade rural de Iwama tinha poucas centenas de moradores. Quando Ueshiba melhorou de sua doença, ele passou a dedicar seu tempo à agricultura, treinamento e meditação. Seus poucos alunos de aikido consistiam principalmente de jovens locais e membros das famílias de crentes da Omoto, que ainda tinham que ficar escondidos após o terrível golpe contra a religião, em 1935. Pela primeira vez em muitos anos livre das duras obrigações como professor, finalmente o fundador podia perseguir seu treinamento pessoal e as atividades ascéticas sem distrações. Ele transformou o dojo de Iwama e as redondezas em um laboratório de treinamento. Lá, Morihei fez experiências com infinitas variações de técnicas enquanto fazia contínuos refinamentos, e então expandiu ainda mais sua intuição e a capacidade de perceber a intenção de seu oponente.
Morihei se levantava antes do nascer do sol a cada manhã para rezar e cantar. Este ritual era parte de seu treinamento de misogi e uma das formas dele se conectar com o mundo divino. O fundador nunca impunha suas crenças religiosas a seus alunos. Mas, como uma questão pessoal, o aikido representava para Morihei uma ponte entre o Céu e a Terra e uma ferramenta a ser usada para afastar o mal do mundo e atingir a harmonia entre as pessoas.

O Final da Segunda Guerra Mundial

Os esforços de guerra progressivamente minaram a força da altamente militarizada economia Japonesa. Com racionamento de muitos bens de consumo básicos e perigosas condições de vida, muitos fugiram para a segurança das áreas rurais para evitar e devastação que ocorreu nas grandes cidades do Japão. Com a rendição do Japão em Agosto de 1945, a economia foi devastada e a família Ueshiba em Iwama passou por muitas dificuldades, assim como virtualmente toda a população Japonesa. A preocupação que agitava todas as pessoas em toda a nação era procurar alimento suficiente para viver.
Apesar de Ueshiba ter ensinado milhares de pessoas antes da guerra, o final do conflito o afastou de quase todos seus antigos discípulos. A prática das artes marciais tinha sido proibida pelo Quartel General das forças aliadas (GHQ), mas esta proibição era mantida de forma irregular até mesmo em áreas urbanas e não era muito forte na área rural da prefeitura de Ibaragi. Durante o início do período do pós-guerra, Morihei batizou sua residência no campo de “Aiki En” para tirar a ênfase das atividades de treinamento em artes marciais, em respeito à proibição do GHQ.

Enquanto os soldados Japoneses eram gradualmente repatriados após a guerra, vários antigos alunos de Ueshiba vieram visitá-lo e treinar com o mestre em seu retiro de Iwama. Entre as figuras bem conhecidas da época de Kobukan, que se juntaram a seu treinamento com os poucos alunos do local estavam Gozo Shioda, Koichi Tohei, e Minoru Mochizuki. Além disso, o filho de Morihei, Kisshomaru, frequentemente praticava em Iwama, e o jovem Tadashi Abe, que depois difundiu o aikido na França, era uchideshi durante este período.
Como Ueshiba estava em Iwama treinando com um pequeno séqüito de discípulos, e não havia nenhuma atividade no antigo Kobukan Dojo em Tókio no fim da década de 1940, Iwama se tornou o quartel general do Zaidan Hojin Aikikai quando a fundação foi feita em 1948. Continuou sendo assim até que a qualificação de quartel general voltou para Tókio por volta de 1956, na época em que as atividades do Shinjuku Dojo foi completamente reestabelecida.

Morihiro Saito se junta ao Dojo de Iwama

Em 1946, um garoto magro de 18 anos chamado Morihiro Saito criou coragem para procurar Ueshiba no Dojo de Iwama. Para os jovens do local, o fundador do aikido parecia ser um misterioso recluso com estranhos poderes físicos. Saito nasceu em uma vila das proximidades em 1928 e se tornou fã de artes marciais ainda muito jovem. Ele conheceu o judo, o kendo e o karate antes de conhecer Ueshiba. Saito descreveu seu encontro inicial com o fundador com estas palavras:
“Era a estação quente e eu cheguei de manhã. O-Sensei estava fazendo seu treinamento da manhã. Minoru Mochizuki me levou aonde O-Sensei estava praticando com vários alunos. Eu entrei na sala que hoje é a sala de seis tatamis do dojo. Enquanto eu estava lá sentado, O-Sensei e Tadashi Abe entraram. Quando O-Sensei se sentou, Abe imediatamente colocou uma almofada para ele. Ele realmente se moveu com rapidez para ajudar O-Sensei. Sensei olhou para mim e perguntou, “porque você quer aprender aikido?”. Quando eu respondi que queria aprender se ele me ensinasse, ele perguntou: “você sabe o que é o aikido?”Eu não tinha como responder o que era o aikido. Então o Sensei disse, “eu vou lhe ensinar a servir a sociedade e as pessoas com esta arte marcial”.
Eu não tinha a mínima idéia de que uma arte marcial poderia servir à sociedade e às pessoas. Eu só queria ficar forte!”

Saito logo se tornou útil para o dojo e progrediu rapidamente. Como resultado disso, ele teve permissão para participar das sessões cedo, de manhã, que normalmente eram reservadas para os uchideshi. Seu trabalho na linha férrea japonesa acabou sendo um golpe de sorte para ele e seu treinamento de aikido. O trabalho de Saito com turnos de 24 por 24 horas o deixou livre para passar bastante tempo com o fundador. Outros alunos não tinham uma flexibilidade como essa em seus horários de trabalho. A pobreza muito difundida no Japão naquela época fazia com que fosse muito difícil para eles continuarem a prática do aikido. Se eles passavam um tempo treinando ou ajudando Ueshiba com as tarefas da fazenda, era um tempo que eles estariam longe de suas famílias e de seus trabalhos. E um a um, os alunos foram obrigados pelas circunstâncias a abandonar o treinamento do aikido até que apenas uns poucos continuaram a participar das práticas matutinas.
Ao ver a devoção de Saito com seu treinamento, Ueshiba gradualmente passou a depender dele mais e mais em sua em sua vida privada. A maior parte do tempo que Saito passava com Ueshiba envolvia ajudar o fundador com tarefas de agricultura e outros trabalhos. No final, somente Saito permaneceu para servir ao fundador de forma regular. E em gratidão pela ajuda, Ueshiba deu a Saito um pedaço da terra em sua propriedade para que ele construísse uma casa. Mesmo após seu casamento, a paixão de Saito pelo treinamento continuou firme. Na verdade, sua jovem esposa começou a ajudar a família Ueshiba também, e cuidava pessoalmente da velha esposa de Ueshiba, Hatsu.

Hiroshi Isoyama

Outro jovem que se juntou ao Dojo de Iwama logo após a guerra se tornou importante no mundo do aikido. Um nativo de Iwama, Hiroshi Isoyama se juntou ao dojo de Ueshiba aos 12 nos de idade, em 1949. Ele treinou regularmente no dojo de Ueshiba por nove anos, primeiro nas aulas para crianças e depois com os adultos. Em uma entrevista recente, Isoyama se lembrou dos rigores do treinamento, no início, quando o Dojo de Iwama ainda não tinha piso de tatami. Ele apareceu em muitas das fotos antigas a partir de 1950 como um garoto magro, geralmente junto com Morihiro Saito.

Isoyama deixou Iwama em 1958 quando se juntou à Força de Auto Defesa Aérea. Por sua longa carreira militar, Isoyama ensinou centenas de alunos das forças armadas japonesas, bem como aos Americanos locados em bases militares no Japão. Ele chegou à graduação de 8o dan e atualmente é conselheiro técnico da Federação Internacional de Aikido. Depois de se retirar para Iwama, Isoyama viaja frequentemente pelo Japão e ao exterior para dar aulas.

O nascimento do aikido moderno

Os métodos de ensino do fundador durante o período de Iwama eram muito diferentes em relação aos anos antes da guerra. Antes, em sua carreira de professor, o costume de Morihei era simplesmente mostrar as técnicas umas poucas vezes, dando poucas explicações. Este era o método tradicional de instruções de artes marciais, em que os alunos tinham que fazer o máximo para “roubarem” as técnicas de seu professor.
Durante o fim da década de 1940s e o início da década de 1950, Ueshiba passou a fazer extensivos treinamento privado durante o dia. Morihiro Saito servia como seu parceiro de treinamento a maioria do tempo. O fundador estava especialmente absorvido no estudo de aiki ken e jo. Uma das principais influências em seu estudo de ken era a escola de espada Kashima Shinto-ryu. Em 1937, Ueshiba chegou a se juntar formalmente à escola Kashima, junto com Zenzaburo Akazawa. Os instrutores deste ryuha faziam visitas semanais ao Kobukan Dojo, aonde ensinavam o currículo da escola Kashima por um período de um a dois anos.
Apesar de não participar pessoalmente, Ueshiba observava regularmente as sessões que consistiam primariamente de treinamento de armas. O grande número de técnicas de armas contidas no manual de treinamento Budo de Ueshiba, de 1938, dá maiores evidências de que o fundador do aikido tinha um grande interesse neste assunto, que começou por volta de 1930.
Os anos do pós-guerra de Iwama eram extremamente importantes para o desenvolvimento do moderno aikido. Ueshiba começou a sistematizar suas técnicas em agrupamentos correlacionados e estudou as mesmas técnicas repetidamente em sua prática. Ele ensinava primordialmente as técnicas começando pelo básico, e progressivamente ido a níveis avançados. O fundador insistia que cada pequeno detalhe devia ser correto na performance de uma técnica. Foi por volta desta época que ele começou a usar o termo “takemusu aiki”. Este conceito representa o mais alto nível do aikido, em que a pessoa se torna capaz de executar espontaneamente técnicas que se adaptam perfeitamente à natureza do ataque. De fato, pode-se argumentar que o nascimento da forma moderna do aikido coincidiu com o surgimento do conceito do takemusu aiki durante o período de Iwama.

Supervisionando o Dojo de Iwama durante a ausência do fundador

O fundador começou a viajar para Tókio e Kansai frequentemente a partir de meados de 1950, enquanto sua esposa normalmente ficava em Iwama. Como ficava sempre no Dojo de Iwama, Morihiro Saito assumiu a responsabilidade pela maior parte das aulas enquanto Ueshiba estava ausente. Saito também mantinha contato com Koichi Tohei e o substituía com freqüência em seu dojo particular em Utsunomiya quando Tohei fazia suas freqüentes viagens ao Hawaii para dar aulas.
Com o desenvolvimento dos clubes de aikido em muitas universidades Japonesas no final da década de 1950, diversos clubes de alunos organizaram gasshuku anuais no Dojo de Iwama. Saito normalmente ensinava estes grupos de universitários e o fundador parecia satisfeito por ter grupos de estudantes treinando em seu dojo particular. Esta é uma tradição que permanece até hoje.
Após a morte do fundador em 26 de Abril de 1969, Saito se tornou o instrutor chefe do Dojo de Iwama, e também o guardião do santuário Aiki das proximidades. Morihiro Saito serviu a Ueshiba com devoção por 24 anos seguindo a mesma linha de treinamento desde a morte de Ueshiba. A ênfase de Saito foi na preservação da metodologia de ensinamento do fundador, que consistia de um extensivo currículo que incorporava tanto o taijutsu quanto o bukiwaza.

A Meca do Aikido

A partir da década de 1970, os primeiros aikidoka estrangeiros foram aceitos como uchideshi no Dojo de Iwama. A partir de então, literalmente milhares de estrangeiros de diversos paises ficaram lá de poucos dias a vários anos, vivendo e treinando em Iwama. Uma das conseqüências deste fenômeno tem sido o desenvolvimento de diversos instrutores treinados no que se tornou conhecido como aikido “estilo Iwama”. Muitos destas pessoas treinadas em Iwama retornaram a seus países natais e começaram a ensinar esta visão unificada do aikido, com ênfase no taijutsu e no bukiwaza, como foi organizado por Morihiro Saito. É interessante que a presença de tantos estrangeiros no Dojo de Iwama por todos estes anos levou a um aumento recente do numero de jovens também.

Aiki Taisai

Em 1970, o ano posterior à morte do fundador, uma nova tradição teve início em Iwama. Todos os anos, em 29 de Abril—um feriado nacional em que era anteriormente celebrado a data do nascimento do falecido Imperador Hirohito— uma cerimônia em homenagem ao falecimento de Morihei Ueshiba é feita em frente ao santuário Aiki. Esta cerimônia é feita pelo Aikikai Hombu Dojo, e organizada por Morihiro Saito e o Dojo de Iwama. A cerimônia dentro do santuário Aiki é conduzida por sacerdotes Omoto vestidos com suas vestes tradicionais, azul celeste e branco. O “Aiki Taisai” aumentou seu tamanho através dos anos e o evento deste ano foi presenciado por cerca de 900 pessoas. Praticantes de todo o Japão e alunos estrangeiros vieram para apresentar seus respeitos e presenciar o serviço Omoto em memória de Morihei Ueshiba.
Iwama realmente era um lugar especial para Morihei Ueshiba. Foi um refúgio durante os difíceis tempos da Segunda Guerra Mundial, e foi uma locação perfeita para os anos de treinamento intensivo e introspecção. O conceito de “takemusu aiki” foi um produto do treinamento de Ueshiba durante os anos de Iwama. E foi assim também com seu interesse na prática com armas como parte integral do currículo do aikido. Certamente, pode-se argumentar que como Morihei Ueshiba estava continuamente refinando seu aikido ele estava no ápice no fim de sua vida. Mas muitos que o conheceram e treinaram com ele no fim dos anos 60 até os anos 70 indicam o período de Iwama como seu melhor momento. Todos dizem que o vigor físico de Morihei, sua precisão técnica e sua percepção espiritual durante estes anos eram realmente impressionantes. Esta visão é realçada pelo fato de que o fundador criou Iwama como seu retiro pessoal, espiritual e para seu treinamento, o que torna plausível que se considere Iwama como o local de nascimento do aikido.

Conclusão

Eu visitei Iwama pela primeira vez em Julho de 1969, com William Witt, que logo se tornou o primeiro estrangeiro uchideshi no Dojo de Iwama. Eu tinha treinado com Morihiro Saito Sensei em suas aulas de Domingo no Aikikai Hombu Dojo no verão posterior ao falecimento do fundador e estava curioso para visitar Iwama. Mas só no verão de 1977 fui capaz de organizar minha vida para poder voltar e viver e treinar em Iwama. Eu passei um total de 4 anos e meio praticando no Dojo de Iwama antes de passar para Tókio. Nos anos que freqüentei o Aiki Taisai em cerca de 15 ocasiões o considerei um dos eventos unificadores mais importantes do aikido.
Minha pesquisa me deu a oportunidade de entrevistar pessoas como Morihiro Saito, Zenzaburo Akazawa, Shigemi Yonekawa, Gozo Shioda, Koichi Tohei, Sadateru Arikawa e o falecido Doshu Kisshomaru Ueshiba, num período de 25 anos. Eles e muitos outros me deram informações valiosas sobre a importância de Iwama para o desenvolvimento do aikido do pós-guerra.
Naquela época, o Dojo de Iwama e a casa de Morihei Ueshiba em Iwama estavam em perigo de serem demolidos e a propriedade ser vendida. Felizmente para o mundo do aikido, este destino trágico aparentemente foi afastado e estas construções históricas e o santuário Aiki permanecem intactos como um monumento à genialidade de Morihei Ueshiba O-Sensei.

Texto de Stanley Pranin,

tradução Jaqueline Sá Freire

Fonte: Site do Instituto Takemussu

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