Hakama Sabaki

Hakama sabaki é a habilidade de andar, treinar e sentar usando um hakama. Pode ser um tanto difícil do que parece no inicio. Se um aikidoista ou iaidoka que usa hakama há muito tempo lhe disser que nunca tropeçou na bainha durante a sua prática, ou ele é extremamente gracioso em seus movimentos ou um mentiroso. O método de andar de modo bem-sucedido de hakama, mover-se com rapidez e elegância, requer alguma prática. Gaki-daisho é uma expressão arcaica para andar arrogante de uma pessoa que carrega um par de espadas. O falecido ator Toshiro Mifune frequentemente adotava esse modo de caminhar quando fazia o papel de um samurai em filmes, com as pernas do hakama balançando a cada passo. Os verdadeiros samurais eram admirados por andar shizo-shizo, ou silenciosamente, com os joelhos levemente flexionados, para que seus hakamas quase não se movessem. Caminhar de hakama, especialmente em ambientes externos, pode ser um teste de habilidade, especialmente em um tempo úmido e usando sandálias do tipo zori. O zori ou algum tipo de sandália ou tamanco geta eram os únicos tipos de sapatos que os japoneses pré-modernos possuíam. Invariavelmente, jogavam lama ou água nas costas de quem os usava, se a pessoa não fosse cuidadosa. É uma experiência interessante se você tiver oportunidade: caminhe por um gramado molhado usando zori e hakama, depois tire o hakama e veja se a parte detrás está seca.

Ao sentar-se no chão, existem alguns truques que podem evitar que as pernas do hakama se embolem sob suas pernas. Um é do Ogaswara ryu, uma escola de etiqueta que criava as normas e as regras para a classe guerreira. Recomenda-se que se faça um movimento suave para a esquerda e para a direita com as pernas do hakama por trás dos joelhos antes de se sentar, fazendo com que o tecido voe para os lados como as asas de uma ave depois que ela pousa. (Suave é uma palavra importante aqui. Ostensivamente mover o tecido com um “pop” distinto é um aborrecimento, de acordo com o protocolo do Ogaswara ryu). A pessoa passa a mão pelo lado de dentro da perna esquerda ao começar ajoelhar, depois repete com a perna direita. Se for feito corretamente – isso requer alguma prática para que pareça natural – , as pernas do hakama cairão para o chão e não ficarão enroladas nas suas pernas quando você tentar se levantar. Na etiqueta da cerimônia do chá, há algumas variações. Em um dos métodos, ambas as mãos são levemente pressionadas contra as coxas ao se ajoelhar, escorregando pelo comprimento das pernas até quase antes de os joelhos tocarem o chão, e então as mãos alisam a frente das pernas do hakama em direção aos lados. Em outro método, ambas as mãos alisam para trás as pernas do hakama pelo lado de dentro dos joelhos simultaneamente enquanto a pessoa se ajoelha. Essas variações refletem diferentes escolas de etiqueta do antigo Japão, algumas das quais tiveram influências sobre os ryu de cerimônia do chá.

Quem usa hakama em um dojo? Na maioria dos koryu clássicos, o hakama é usado desde o inicio do treinamento. O mesmo acontece com o iaido, kyudo e naginata-do. O Aikido parece ser o único budo em que o uso do hakama é algum tipo de privilégio ou prova de graduação. Por que isso evoluiu dessa maneira no aikido é um mistério. Mas não foi sempre assim. A maioria das fotos mais antigas de treinos de aikido (por volta de 193o) mostra todos os praticantes usando hakama. Só algum tempo depois da Segunda Guerra Mundial que o hakama passou a ser ligado às graduações nos dojos de aikido. Uma possível explicação para esse fato é que, com o rápido crescimento da arte, os professores precisavam de uma forma rápida de identificar os principiantes, portanto o hakama era reservado aos que recebiam a graduação de dan. Um cenário mais provável foi sugerido por mais de um dos alunos da arte do pós-guerra: qualquer tipo de tecido era extremamente raro depois da derrota para os Aliados. Mesmo que Ueshiba fosse rígido com a formalidade relacionada ao uso do hakama em aula, as circunstâncias provavelmente impediam que a maioria de seus alunos pudesse pagar pela vestimenta. Assim, começou a prática de “bem, apenas os alunos mais avançados precisam usar hakama“. Se for verdade, é irônico que as tradições do dojo de aikido foram mudadas, e agora apenas os alunos avançados tenham permissão para usar a roupa. Outra anomalia do hakama no aikido tem sido seu uso entre as mulheres. Enquanto os homens não podem usá-los até chegarem a determinada graduação, as alunas usam hakama assim que começam a treinar. Por que? A explicação “oficial” é que isso se deve a “modéstia feminina”. Aparentemente, alguns professores de aikido de meados do século XX consideraram que seria um risco as mulheres usando calças. E assim surgiu a ordem de que as mulheres usassem o hakama, não importando suas graduações. Apenas é necessário que se saiba os rudimentos da história social recente para imaginar como isso foi recebido pelas mulheres.

A maioria dos praticantes de artes koryu não usa calças sob o hakama, mas os praticantes de aikido as usam. Existe uma explicação – esta é mais apresentada com referência ao assunto mencionado acima, das mulheres usando hakama no dojo de aikido – de que as calças eram originalmente roupas de baixo usadas sob o hakama, portanto a prática de cobri-las é tradicional e referente ao pudor. Não daria certo que as mulheres treinassem usando o que era, essencialmente, uma roupa de baixo. Não mesmo. Não existia nada como as calças modernas no Japão pré-moderno. O hábito de usar calças sob o hakama deve ter surgido em virtude do uso do suwari-waza, as técnicas de aikido que são praticadas na posição de joelhos. A camada extra de tecido entre os joelhos e o tatami pode dar alguma proteção contra arranhões e “queimaduras”. Como os primeiros alunos de Ueshiba vieram do judo, que tinha recentemente adotado as calças como parte de seu uniforme, eles podem ter tornado isso uma peça que acabou sendo aceita como parte da roupa de treino do aikido. Se você usar calças sob o hakama, tome cuidado para que a bainha da calça não fique abaixo da bainha do hakama. Isso é completamente fora de “moda”. É claro que existem os fora de moda, e existem os que vão contra a moda. Usar a faixa por fora do hakama para demosntrar a graduação está nesta última categoria. Algumas escolas clássicas de artes marciais podem fazer isso, para simular a faixa que prende a espada longa, ou para facilitar a prática de colocar e retiar a espada do local onde ela seria usada, ou mesmo para ser usada como lugar para ser segurado na prática de técnicas de agarramento. Mesmo assim, quando usada enrolada na cintura por fora do hakama, a faixa dá a impressão de que a pessoa não resiste a tentação de exibir sua graduação – mesmo com o risco de parecer tola com isso.

Ao considerar o papel do hakama no dojo de budo ou em qualquer outro lugar, é necessário lembrar de uma frase normalmente usada para os kimonos japoneses: “Kae nai, kirare nai, tatami nai” (Não tem dinheiro para comprar, não sabe usar corretamente, não sabe dobrar). O homem japonês comum, usando um hakama em seu casamento ou em algum outro evento (hoje já existem hakama com velcro para imitar a aparência de um nó verdadeiro), costuma vê-lo mais ou menos da mesma maneira que um ocidental reage a um terno alugado. Tanto o japonês como o ocidental podem achar as roupas formais respectivas quase tão ruins quanto vestir-se de espilhos de ouriço. Mas os espinhos não são muito piores. As pessoas que no Japão e em outros lugares passam tanto tempo vestidas com essa saia esquisita deveriam aprender a usá-la corretamente. Mas devemos ser tolerantes com as pessoas que se espantam com nossa escolha de usar uma roupa assim, que, para ser honesto, é um bom sinal de que nós também somos meio esquisitos.

Texto extraído do livro “O Dojo” de Dave Lowry

tradução Jaqueline Sá Freire

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