Kamidana

Geralmente, o iniciante entra no dojo pela primeira vez com a crença de que embarcou em uma nova direção em sua vida e, na verdade, apesar de ser novidade em alguns sentidos, essencialmente será muito semelhante às coisas que ele fez antes. Ele suspeita que verá coisas incomuns. Afinal, isso é uma arte japonesa, e existem poucas culturas mais exóticas ou estranhas, pelo ponto de vista dos japoneses, que a do Japão. Mas veja bem, isso é basicamente uma atividade física. Você vai a um determinado lugar, usa roupa apropriada, faz aquecimento e participa da aula. Depois toma um banho e vai para casa. Você cria amizades dentro daquele grupo e espera que gradualmente, se torne hábil nisso. Tirando o fato de que você não pode tomar cerveja na hora da aula e que economiza o preço da bola, não é muito diferente de fazer parte de um time de boliche, certo?

Se você está entrando em um dojo sério e tradicional, essa atividade dura mais ou menos dez minutos. Apenas o suficiente, até que o professor bata palmas, ou até que um dos alunos mais antigos vá para um lugar e os demais o sigam e se alinhem ao seu lado, e de repente estão todos ajoelhando e há mais bater de palmas e reverências na direção de uma pequena e não muito bem decorada “casinha de bonecas” colocada cuidadosamente em uma prateleira. E, após o início, você fica se perguntando se, em vez de ter entrado em uma academia de artes marciais, não cruzou com algum tipo de culto, e se logo vão lhe pedir que raspe a cabeça e vá pedir dinheiro nas esquinas. Mas não vai além disso. No entanto, se for um verdadeiro dojo, no qual se ensina e pratica um budo tradicional, é provável que o aluno logo tenha contato, talvez seu primeiro, com o xintoísmo. E então ele deva chegar a uma conclusão, se é que já não chegou: o que está acontecendo por aqui não é algo que um jogador de futebol ou um canoísta de fim de semana terá de lidar ao escolher seu passatempo.

Não é nosso objetivo nem iremos tentar abranger aqui a relação entre xintoísmo e o budo no Japão. E certamente está além de minha capacidade tentar explicar o xintoísmo como religião e como estrutura de crenças populares inerentes à civilização japonesa. Portanto serei o mais breve possível.

A água flui – nagare em japonês – inevitavelmente. Às vezes o fluxo é poderoso e em ondas, às vezes em correntes e redemoinhos tão lentos que parecem parados. Ela se move, gorgoleja, borrifa e ruge. Mas, onde quer que haja gravidade, a água estará fluindo. Em sua essência, o xintoísmo é um modo de olhar a vida em termos de nagare – fluidez. Com o ritmo semelhante ao fluxo da água, a vida se move; às vezes, com rapidez; outras com agonizante lentidão, mas sempre está em movimento. Nosso nível de consciência desse fluxo e nossa habilidade de seguir com ele são os impulsos unificadores do xintoísmo. Em seu coração está o conceito de que a vida flui e que as mudanças, renovações, a decadência, o descanso e o crescimento são todos naturais da cadência das coisas sobre a Terra. Portanto, é melhor que nos ajustemos e aprendamos a apreciá-los – sempre tendo em mente de onde eles emanaram e aonde, eventualmente, deverão nos levar. Assim, existe dentro do espírito do xintoísmo um sentimento de inexistência do tempo. Nossos ancestrais e nossa posteridade estão na mesma corrente, junto de nós. Mesmo que eles ão estejam presentes fisicamente, são parte de nosso mundo. As contribuições do passado, o potencial do futuro; sem a consciência disso podemos nos tornar autocentrados. Na verdade, praticamos nossa arte para nós mesmos, mas também porque nossos professores foram generosos o bastante para transmiti-la a nós e, assim, de maneira humilde, temos a obrigação de polir e aperfeiçoar o que recebemos. É nosso dever manter a arte em sua integridade, para que ela seja passada adiante para a próxima geração. E temos um débito que deve ser devidamente pago as gerações que nos precederam. Esse débito é uma maneira de nos lembrarmos do que devemos a essas gerações, e dos sacrifícios que elas fizeram para trazer a arte até nós. É por isso que o xintoísmo pode ser descrito como uma forma de reverência aos antepassados – o que ele é. Entretanto, junto com a reverência pelo passado, temos o reconhecimento pelos que virão depois de nós. Há um constante fluxo de gerações, e onde começa uma e termina outra nunca é inteiramente claro, pois nossos ancestrais continuam a exercer uma presença em nossas vidas, assim como o fazem os que virão no futuro.

Texto extraído do livro “O Dojo” de Dave Lowry

tradução Jaqueline Sá Freire

Um pensamento sobre “Kamidana

  1. ¡Qué tiempos aquellos Varela San! La juventud nos desbordaba, derrochábamos energía por doquier, con ganas infinitas de aprender y de comernos el mundo. Recuerdo perfectamente cómo mi padre cuando me miraba con escepticismo.¡Ahora lo veo claro!

    Así son los alumnos en sus comienzos: inquietos, hambrientos, inagotables e incluso descarados. Y Sensei ,paciente y generoso que como todo padre sólo quiere lo mejor para sus hijos. ¡Horas de sueño robadas tutelando el camino, y ves como muchas ilusiones quedan en el camino. ¡Qué desagradecidos somos con nuestros padres!

    El mío me decía:”¡Cuándo seas grande comerá huevos!”. En las A.A.M.M decimos:”¡Cuándo estés preparado verás al Maestro!” Qué grandes los paralelismos existentes con el Aikido.

    Así, los que llevamos unas cuantas clases a nuestras espaldas no nos permitimos ni una sola falta al Dojo, ya no sólo por respecto, o por etiqueta, va más allá. Sabemos que nunca podremos pagar la generosidad con que Sensei nos guió.

    No sé tú Varela San, pero yo a mis 40 años empiezo a decir: ¿Y para esto tanto sacrificio? Con los palos que te va dando la vida ¿Merece la pena? ¡Jajaja! Ahora lo miro con perspectiva y me doy cuenta de que todo lo aprendido es pura armonía y sencillez , por eso los niños aprenden Aikido con tanta naturalidad, pienso ¿Para esto tantos años estudiando Aikido?

    Qué grande cuando comprendes qué es Aikido: ¡Aikido es Vida!

    Gracias Varela San por tu espacio y tu tiempo.

    Saludos.

    T.L.S

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